PetitesFolies



Antigo

As transições são sempre difíceis, mas a da adolescência para a juventude responsável – leia-se fase adulta – é um grande desafio. Bem como na adolescência, as mudanças vão se jogando na nossa frente e a gente tem que seguir caminhando. Só que durante aquela fase, nós não temos muita consciência do mundo, até porque isso é dispensável. Nossos pais ainda pensam por nós, sabem o que é melhor, e nosso futuro próximo está decidido.

Tudo fica muito mais complexo quando passamos a controlar nossas vidas. É essa a transição. Não sabemos bem como planejá-la e enfrentar as novas situações; nossos pais já não são as pessoas que sabem tudo. Em muitos temas, temos mais conhecimento do que eles, e temos argumentos contundentes para discordar dos outros. A religião é profanada, a sordidez da realidade se impõe: a competição nos acompanha, as pessoas vem e vão e não há tempo para se fazer tudo o que planejamos.

Planejar é o temos que aprender a fazer. Desde o futuro até o próximo fim de semana. Saber conjugar as nossas vontades e horários com a vontade dos nossos amigos e seus horários. E isso tudo, sem possuir qualquer tipo de propriedade relevante: nossa renda ainda é o subsídio dos nossos pais. Portanto temos que planejar limitadamente.

E aos poucos, tomando decisões erradas, a gente vai descobrindo que o mundo é inerentemente hostil; que as hostilidades gratuitas are the new trend, não a política da boa vizinhança. Que quando achamos que sabemos desempenhar uma função brilhantemente, a gente vai ter que pedir ajuda. Que as amizades, infelizmente, não são eternas em intensidade. E que, se a gente ama, não necessariamente será correspondido. E que teremos que aprender a lidar com as injustiças.

Ah, a realidade! ela cai sobre nós intempestiva quando chegamos aos 20. Quem eu quero ser, onde quero estar, com quem. Onde estará a minha realização? Como chegar lá? E depende de nossas próprias escolhas e de nossa coragem. Só que não é fácil interpretar os acontecimentos, entender a racionalidade das escolhas alheias, para agirmos em contrapartida. Chegamos a pensar que nossas percepções são totalmente erradas, e aí caímos no zero de não compreendermos algo sequer e dá um desespero.

E temos que conviver com fatos para os quais não temos explicação e, portanto, não podemos traçar um plano de ação para enfrentá-los. E temos que viver, mesmo assim, fingindo que está ‘tudo bem’. É, não expressar as emoções para determinadas pessoas é um must do que aprendemos, mas que é difícil de assimilar.

Ah, sim, o jogo dos sentimentos – que pode ser dos casais ou mesmo dos amigos – é o mais difícil que existe. Porque a lógica é que, quanto menos tu demonstras que ama, mais a pessoa dar-te-á importância. É um jogo de gato e rato: quanto mais tu foges, mais pontos tu ganhas, porque a pessoa virá atrás de ti. Só que, se tu não dás um feedback, corre o risco de perder a pessoa. É aquele lance de as pessoas só darem valor com a ausência ou se se sentem rejeitadas anexado com o fato de que se tu não se impor, tu podes ser substituída.

E descobrimos que, assim como na economia, os fatores externos são obviamente exógenos e não podemos controlá-los. Assim, o cenário estará em constante mutação e teremos que nos adaptar imediatamente. Seguir uma rotina vitoriosa não trará necessariamente a vitória. Temos de ter jogo de cintura pra lidarmos com as injustiças, as misperceptions, as traições e a má sorte.

E a gente segue vivendo, sofrendo por não sabermos lidar com certas situações e pelas coisas que dão erradas, buscando maneiras para nos legitimar perante nossos mestres, amigos, inimigas, paixões e todo o mundo. Nessa busca desenfreada, descobrimos que estar feia ou bonita não importa, que ser simpática e boazinha não te farás reconhecida, que horas de dedicação pode ser desperdício e que ainda estamos muito longe de compreender algo. O que nos resta é continuar vivendo, reafirmando convicções, mudando de planos, trocando de roupa, buscando encontrar em lugares, músicas e gentes um pouco de nós – um pouco das mesmas dúvidas, que é o que nós somos nessa fase transitória louca.

Anúncios

Trackbacks & Pingbacks

Comentários

  1. * Rafaela says:

    Estou muito ajojada das mil horas de computador hoje, mas adorei. Ali onde diz “Onde estará a minha realização? Como chegar lá? E depende de nossas próprias escolhas e de nossa coragem.” me deixou pensando como isso é complicado, porque, primeiro, é muito difícil descobrir a resposta da primeira pergunta. Em geral se tenta estimar, intuir – sortear (!) -, mas e então vem a 2a pergunta. E existem tantos meios de dar certo e de dar errado, e, no meio dessa busca no escuro, se tenta conhecer o que outras pessoas já fizeram, mas as pessoas têm tantas opiniões, extremos de opiniões, e tantas vivências diferentes de como conseguiram dar certo ou errado, que… Donde se conclui que também não existe o plano infalível. Não existe o plano infalível, e a idéia de que estes são os anos em que as decisões farão diferenças dramáticas no futuro traz, ao menos para mim, contrariamente ao esperado, uma sensação de impotência. Porque, se não existe resposta 100% correta para onde encontrar a realização, nem um plano infalível para chegar até ela, realmente acho que a idéia é o sorteio. Né. Sortear a vida. Foi! Formou! Pelo menos diminui a culpa. haha. Bem mais fácil acreditar em destino e se deixar levar. Chato isso de não existir mais “deixar-se levar”. No mínimo, temos que escolher como, de qual forma. Que inferninho. Tenho vivido muito esta crise.

    | Responder Publicado 6 years, 3 months ago


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: